Poucas séries conseguem se tornar o fenômeno que “Orange is The New Black” se tornou com apenas uma temporada de vida. Para isso, diversos fatores entraram em jogo: a novidade e divulgação intensa do Netflix, o roteiro bem elaborado de Jenji Kohan, o elenco extraordinário que dá vida aos personagens, os dilemas e tabus que a história não tem medo de abordar, e, é claro, as cenas de “amor” entre Piper e Alex.
A primeira cena da série mostra as duas moças numa pegação debaixo do chuveiro. Precisa de algo mais para prender a atenção? Mas, sem querer desmerecer o romance entre duas, para mim, são os arcos narrativos ao redor delas que se destacam. Para que você ainda não conhece, em suma, é a história de uma mulher que se rende e vai para a prisão após ter feito um favor por uma antiga paixão há anos. E é lá dentro a estrutura que faz OITNB a grande produção que é.
1. As panelinhas
Deixando a convenção social de respeito mútuo de lado, a prisão é um reflexo da sociedade em que vivemos. Metaforicamente falando, aqui de fora também temos guardas que nos abusam sexual e psicologicamente, alianças que se juntam por interesses internos ou externos visando um bem egoísta, superiores que se sentem donos da razão e a hostilidade que nem sempre nos vêm tão disfarçada assim. E é nesse mundo de extrema crueldade que a ingênua Piper (e muitos de nós), acaba sendo massacrada sem saber para onde ir ou o que fazer.
Por outro lado, como espectador, essa legião de tribos formadas acarreta nas histórias mais divertidas - e sofisticadas - da série. Você se diverte muito com as latinas “sendo latinas” e as negras “sendo negras” - porque a atitude positiva pela qual elas encaram o mundo é tão engraçada quanto inspiradora. E mesmo se apoiando em estereótipos, o roteiro lida de forma inteligente com problemas raciais de forma individual, dando a cada grupo uma densidade histórica e distintiva. Ao mesmo tempo, eles brincam com a segregação ali instalada - apresentando até um grupo denominado “Golden Girls/Outras”, com as senhoras de mais idade e algumas asiáticas.
2. As personagens “secundárias”
Chega a ser clichê elogiar um elenco para a recomendação de uma série, mas me atrevo a dizer: as atrizes de OITNB são um dos melhores casting dentre as produções seriadas. Não apenas por causa das intérpretes, mas também por causa de cada personagem, uma vez que todas estão encarando os seus demônios e escolhas de vida da melhor maneira possível com o que têm - é como se cada uma delas pudesse ter uma spin-off ao fim da série.
Seja com a divertida Big Boo (Lea DeLaria), a “hippie” Yoga Jones (Constance Shulman), a brava Nikki (Natasha Lyonne), a amedrontadora (e companheira de cela de Piper), Miss Claudette (Michelle Hurst), a “dura” chefe de cozinha, Red (Kate Mulgrew), ou com a excêntrica religiosa Tiffany “Pennsatucky” Doggett (Taryn Manning) - esta que detém uma das melhores atuações e personagens da série -, a complexidade de cada uma delas agrega à história um tom bem mais sombrio do que o cenário da personagem principal. E são nesses arcos que OITNB brilha ao tratar de pré-conceitos perante as mulheres em geral, aquelas que estão na cadeia e os grupos nas quais estão “classificadas”.
Apresentadas através de conversas e flashbacks que remontam o momento de como elas foram parar na prisão, as histórias apresentam como cada uma dessas mulheres têm muito mais camadas do que elas expõem no dia a dia do encarceramento. E uma que se destaca é a de Sophia Burset (interpretada pela atriz transexual, Laverne Cox), uma detenta que cometeu fraude de cartão de crédito para se tornar uma mulher. Todas as complicações com sua esposa e seu filho são retratadas de forma sútil, mas sem menosprezar a delicadeza dessa situação com direito a uma performance cheia de bravura e dignidade.
3. O romance principal
E no meio de todo esse cenário caótico e complexo, não poderia faltar um triângulo amoroso. Como já disse, Piper (Taylor Schilling) está na prisão por ajudar uma antiga namorada, Alex (Laura Prepon). Mas isso aconteceu há muitos anos - quando ela se rende, já está noiva de Larry Bloom (o sempre abobado Jason Biggs), num relacionamento que é tão charmoso quanto perturbado. Afinal, ela está literalmente na dúvida se é ou não lésbica.
Mas é o romance entre Piper e Alex que conquistou milhares de fãs ao redor do mundo - e com o mérito devido: as duas atrizes têm uma química sensacional em cena, o que transforma esse relacionamento farpudo (de amor e ódio) muito interessante de assistir. Mesmo quando o calor é esfriado por alguma situação séria, a DR das duas sempre é intenso e brutal - “A regra número um é: não se apaixone.”
4. Crazy Eyes
Na disputa de excentricidade entre Doggett (a extremista religiosa) e Crazy Eyes, o meu voto vai para a segunda - sem querer desmerecer a primeira, as duas são grandes destaques da série, sem dúvidas. Mas Suzanne (Uzo Aduba) é um daqueles personagens (ou pessoa) que está anos a frente de nós, comuns, em termos de compreensão de sentimentos. Nós não somos páreos para compreender alguém que começa a história com tom de comédia e termina sendo (ainda timidamente) explorada pelo roteiro como tragédia. Ela urina de raiva no chão de Piper (quem ela deseja que seja sua esposa) e depois recita um diálogo de Shakespeare. É gênia.
5. Netflix
Enquanto tudo muda ao nosso redor e muitos não sabem como se comportar, alguns atores parecem confiantes do que está a vir a seguir. Um deles, sem dúvidas, é o Netflix. O serviço de streaming tem um catálogo intenso (com shows, séries, filmes, documentários, desenhos animados…), oferece com facilidade e qualidade aquilo que transmite (você pode assistir no PC, TV, tablet, etc.) e tem ganhado ainda mais credibilidade com a produção de séries originais: “House of Cards”, “Arrested Development” (semi-original) e agora OITNB. Todas de uma qualidade invejável (a primeira que já recebeu seus primeiros Emmys) e que permite uma coisa que muita gente reclamava para as emissoras: ter que esperar uma semana por cada episódio. No Netflix, a temporada sai completa e você pode assistir tudo uma vez. Mesmo assim, você escolhe quando e como assistir - agora é você quem manda na transmissão.
Via: http://cincomotivos.com/
Via: http://cincomotivos.com/

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